Novembro de 2025 Vol. 1 Edição 7
TRANSFORMANDO MADEIRA EM SOM
Existe algo quase imperceptível no ar por aqui: madeira que reverbera, calos que viram nota, serragem que se espalha e transforma‑se em ressonância.
No ateliê de Gildo Cajon, essa atmosfera é rotina. Há mais de 25 anos ele vive e respira o ofício de luthier‑artesão, transformando compensado laminado e madeira maciça em instrumentos de percussão que têm presença e autenticidade.

O ofício e a escuta
Antes que a serra dê o primeiro corte, Gildo já escuta. Ele se inclina, observa o peso, a textura e a densidade do material. Sente que um painel de compensado traz vibração, que uma tábua comum se dobra a um sussurro diferente. Ele afirma que “cada instrumento tem uma alma própria” , e na prática, o que vemos é que cada peça nasce da composição entre a árvore, a lâmina, as mãos do luthier e o silêncio que antecede o som.
Num ateliê onde madeira, ferramentas e notas musicais se misturam, percebemos que, para Gildo, o instrumento não nasce da fabricação: nasce da revelação. A madeira não lhe obedece, ela já fala e ele apenas a amplifica.
Aqui na CRIA, essa história de escuta ativa, de transformar matéria em presença, nos toca profundamente. Trabalhando com design autoral de mobiliários, nós também nos inclinamos sobre cada lâmina, tratamos cada chapa de madeira maciça como uma partitura que espera ser tocada na vida das pessoas. Assim como Gildo não cria apenas um cajón, nós não desenhamos apenas uma cadeira ou mesa: criamos o cenário onde uma história de vida vai se desenrolar.
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